Como os adereços desnecessários afetam o bem-estar dos cães.

Laços, fantasias e roupas “fofas” podem parecer inofensivos, mas têm impacto real no conforto físico e emocional dos cães.

Na tentativa de demonstrar afeto ou integrar o cão ao estilo de vida humano, muitos tutores acabam adotando práticas que vão contra a biologia e a comunicação da espécie. Entre elas, o uso frequente de roupas, laços, fantasias e acessórios meramente estéticos.

A verdade é que o excesso de adereços pode causar mais desconforto do que carinho.

O corpo do cão é naturalmente preparado para lidar com variações de temperatura. A pele e o pelo cumprem funções essenciais de proteção, regulação térmica e sensibilidade tátil.

Cobrir o corpo com roupas ou acessórios sem necessidade atrapalha esse equilíbrio. Estudos como o de McNicholas & Collis (2000) destacam que a sensibilidade tátil é uma via importante de comunicação e alerta nos cães. Bloquear esse sentido pode gerar irritação e insegurança.

Além disso, tecidos apertados ou mal ajustados podem: reduzir a mobilidade das articulações, causar atrito e lesões de pele, aumentar o risco de superaquecimento (hipertermia), principalmente em dias quentes ou em raças braquicefálicas.

Segundo o estudo de Beerda et al. (1998), a exposição contínua a estímulos estressantes em cães, como restrição de movimentos ou contato físico constante e não solicitado, pode elevar os níveis de cortisol (hormônio do estresse). Ou seja, vestir um cão apenas pela aparência pode ser percebido como uma forma de controle constante, comprometendo o bem-estar emocional do animal.

É importante lembrar: os cães não entendem a intenção estética do tutor. Para eles, o desconforto é imediato e real.

Cães se comunicam principalmente por linguagem corporal: posição das orelhas, postura da cauda, curvatura do corpo e expressões faciais. Colocar chapéus, lacinhos ou fantasias que cubram essas regiões prejudica a comunicação com outros cães e com humanos.

Como explicam Horowitz & Bekoff (2007), a comunicação não verbal entre cães depende da clareza das expressões corporais, e qualquer barreira a isso pode aumentar conflitos ou gerar frustrações.

Quando faz sentido usar roupa?

Há sim situações em que o uso de roupas é justificável: raças de pelo curto em regiões muito frias, cães idosos ou debilitados, com baixa regulação térmica, proteção médica, após cirurgias ou dermatites, coleiras ou peitorais bem ajustados, com função de segurança e mobilidade

Nesses casos, a prioridade deve ser o conforto, ajuste adequado e materiais respiráveis. Nunca o apelo estético.

Amar também é deixar tirar. Se seu cão tenta tirar o acessório, se lambe demais, fica inquieto ou se esconde após ser vestido, ele está claramente dizendo: não quero isso.

O maior sinal de amor é o respeito. E, quando se trata de adereços, respeitar significa não usar o que o cão não precisa.

Afinal, um cão não precisa estar “bonito”. Ele precisa estar à vontade.

Referências:
Beerda, B., Schilder, M. B. H., van Hooff, J. A. R. A. M., de Vries, H. W., & Mol, J. A. (1998). Behavioural, saliva cortisol and heart rate responses to different types of stimuli in dogs. Applied Animal Behaviour Science, 58(3-4), 365–381.
Horowitz, A., & Bekoff, M. (2007). Naturalizing anthropomorphism: behavioral prompts to our humanizing of animals. Anthrozoös, 20(1), 23–35.
McNicholas, J., & Collis, G. M. (2000). Dogs as catalysts for social interactions: Robustness of the effect. British Journal of Psychology, 91(1), 61–70.
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